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Estudante que vive em moradia da UFG relata preconceito: ‘Acham que estamos ali só pela bolsa’

A estudante de Ecologia e Análise Ambiental Izabel Paraguaio, de 25 anos, mora há três anos na moradia estudantil da Universidade Federal de Goiás (UFG) e afirma que ainda enfrenta preconceito por ser beneficiária dessa assistência. “Acham que estamos ali só pela bolsa, como se não estudássemos. Sendo que, na verdade, se não fosse essa oportunidade, a gente nem estaria ali”, contou ao Mais Goiás nesta quarta-feira (11). Segundo a UFG, os moradores podem receber a Bolsa CEU no valor de R$ 500 mensais, mas essa não pode ser acumulada com outros auxílios.

Natural da zona rural de Correntina, no oeste da Bahia, Izabel relata que o choque cultural começou logo nos primeiros meses em Goiânia. “Eu já ouvi colegas dizendo que nunca tinham andado de ônibus na vida”, lembra. “É como se olhassem para a gente e pensassem: ‘Ah, está ali só ganhando bolsa’, ‘está ali só comendo, o governo está sustentando.’ É sempre essa visão.”

Filha de diarista e agricultor, ela afirma que os pais sempre incentivaram os estudos. Izabel cresceu em uma região onde, segundo relata, muitas meninas se casam ainda na adolescência. “Isso é extremamente comum. Eu via aquilo e pensava: ‘Meu Deus, não é isso que eu quero para mim.’” O incentivo dos pais foi decisivo. “Mesmo sem poder me ajudar financeiramente, eles me apoiaram, e isso fez com que eu continuasse estudando.”

Antes de ingressar na universidade, ela trabalhou por nove meses no IBGE. O emprego foi determinante para viabilizar a mudança para Goiânia. “Eu só consegui vir porque, um ano antes, passei no processo seletivo do Censo Demográfico. Durante esse período, juntei o dinheiro para me manter até conseguir uma bolsa na faculdade.” Segundo ela, o fato de estar empregada também tranquilizou os pais, que não tinham condições de ajudar com aluguel ou passagens.

(Foto: reprodução)

A vaga na moradia estudantil foi decisiva para sua permanência na universidade. Izabel conta que desconhecia a existência de auxílios antes de chegar à capital. “Eu só descobri que existia moradia estudantil e isenção no RU quando já estava em Goiânia. Essa informação não chega para quem está na zona rural.” Para ela, ampliar o acesso à informação é tão importante quanto ampliar as vagas.

Atualmente no sexto período, Izabel cursa uma graduação que, inicialmente, não era sua primeira opção, mas foi a que sua nota no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) permitiu. No começo, enfrentou dificuldades nas disciplinas que envolviam cálculos, mas, com o tempo, passou a se identificar com a área e hoje se imagina atuando como ecologista e analista ambiental.

Desigualdade social e Políticas públicas

Ela afirma que, apesar das dificuldades, nunca pensou em desistir. “Infelizmente, não temos a mesma oportunidade de largada. Nós, que somos marginalizados pela sociedade, não temos as mesmas oportunidades de quem nasceu em outra realidade. Chegar até aqui foi extremamente difícil. Eu sei que é um lugar a que poucas pessoas conseguem chegar.”

Para ela, fortalecer políticas públicas e ampliar o acesso à informação são medidas essenciais. “Eu já estive em um lugar onde a informação não chegava. Eu não sabia que existia assistência estudantil, que havia isenção no RU.”

Mesmo reconhecendo as diferenças na base educacional em relação a colegas que vieram de escolas militares ou institutos federais, Izabel diz que transformou os desafios em motivação. “A gente vem de baixo, de uma escola com estrutura inferior, mas eu nunca pensei em desistir. Sempre encarei os desafios diários pensando que aquilo seria passageiro e que, apesar de estar difícil, eu conseguiria dar uma vida melhor para as pessoas que ficaram lá.”

Programa Moradia Estudantil

As Casas de Estudantes Universitários (CEUs) fazem parte do Programa de Moradia Estudantil (PME) da Universidade Federal de Goiás (UFG) e têm como objetivo garantir a permanência de estudantes de baixa renda que necessitam de moradia. Em Goiânia, a PRAE/UFG administra quatro unidades, CEU I, CEU III, CEU IV e CEU V, que juntas oferecem 307 vagas e infraestrutura coletiva, como cozinhas, banheiros, salas de estudo, lavanderias e espaços de convivência.

Os quartos das CEUs são compartilhados, com três vagas por quarto, separados por gênero, e equipados com cama, colchão e guarda-roupa, sendo que algumas unidades também possuem mesas de estudo.

Fonte: Mais Goiás

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