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Besa Me Mucho leva música latina às ladeiras do Morro da Providência

O bloco Besa Me Mucho ocupou, nesse domingo (8), as ladeiras do Morro da Providência, no centro do Rio, com um cortejo que misturou ritmos latino-americanos, batuques brasileiros e uma mensagem política de integração continental. A concentração ocorreu na escadaria da Rua Costa Barros, na esquina com a Ladeira do Livramento, reunindo moradores, músicos imigrantes e foliões de diferentes regiões da cidade.

Criado a partir de coletivos que já transitam há anos pelo território — como o Cortejinho RJ, nascido na própria Providência —, o Besa Me Mucho reafirma a ocupação cultural das ruas como gesto político. “A intensidade de fazer música latina nas vielas da Pequena África é resistência”, resumem os organizadores, ao destacar a relação histórica do bloco com a primeira favela do Brasil.

Entre os foliões, o espanhol Andrés Martin, de 21 anos, que veio de Madrid para viver o seu primeiro carnaval carioca, disse que o bloco simboliza liberdade.

 O cineasta Rodrigo Freitas desfila no bloco latino tradicional do Rio, Bésame Mucho – Foto Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Todo mundo é livre para fazer o que quiser. O carnaval e a cultura latino-americana representam isso”, afirmou.

Para ele, o desfile também abriu espaço para refletir sobre a política migratória dos Estados Unidos. “A forma como os imigrantes estão sendo tratados, especialmente crianças, é levar o problema ao limite”, disse, ao comentar as políticas do governo de Donald Trump.

A bióloga venezuelana Salomé, integrante da banda do Besa Me Mucho e moradora do Brasil há sete anos e meio, destacou o caráter político do carnaval de rua.

“O carnaval é um movimento de resistência, de luta, de ocupar espaços de vida”, disse.

Para ela, a proposta do bloco dialoga diretamente com a ideia de pertencimento latino-americano. “O Brasil é a América Latina. Não entendo essa separação. As fronteiras são humanas, estão na nossa cabeça. Somos habitantes do planeta”, afirmou.

Segundo Salomé, a rua é o espaço central dessa disputa simbólica. “Uma coisa que amo no Rio é que a rua é das pessoas. É onde acontece a festa, o encontro. Temos que continuar ocupando esse espaço sempre”, completou.

Bloco latino tradicional do Rio, Bésame Mucho desce ladeira do Morro da Providência – Foto Tânia Rêgo/Agência Brasil

Professor de sociologia e músico do bloco, André Videira de Figueiredo ressaltou que o caráter político do Besa Me Mucho é indissociável de sua proposta musical.

“É um bloco de música latino-americana, e isso inclui a música brasileira. Entendemos que fazemos parte desse grande aglomerado político que é a América Latina”, disse.

Formado majoritariamente por imigrantes, o bloco, segundo ele, assume responsabilidade maior em momento de visibilidade como o carnaval. “Falar de uma América Latina livre, de uma ideia de América anterior à América do Norte, é uma tarefa que se impõe”, afirmou.

Para o editor Felipe Eugênio Santos e Silva, frequentador antigo do bloco, o Besa Me Mucho ajuda a romper a ideia de que o Brasil estaria à parte do continente.

“Existe uma ideia muito ruim de que o Brasil paira acima da América Latina. Isso é um erro imenso. O bloco ajuda a conectar a gente com a cultura dos nossos hermanos, com as músicas e com os modos de existir”, avaliou.

Na visão dele, a resistência cultural também produz consciência política. “É carnaval, é festa, mas cria uma identidade entre as pessoas. É uma antessala que nos politiza”, disse.

Imigração é tema do bloco latino tradicional do Rio, Bésame Mucho – Foto Tânia Rêgo/Agência Brasil

O empresário carioca Michael Pinheiro também destacou o papel político do carnaval de rua. “O carnaval é o Brasil acontecendo de forma muito objetiva. Mostra para o mundo quem é o nosso povo”, afirmou. Para ele, trata-se de uma manifestação política “de ponta a ponta”. Imigração“Historicamente, o carnaval ensina o próprio povo, é uma ferramenta de comunicação da população com ela mesma”, disse.

Na avaliação do sociólogo Rodrigo Freitas, o desfile nas ladeiras da Providência reforça a identidade latino-americana.

“É um ato de resistência. Um bloco que acontece na ladeira conecta a gente com as ladeiras da América Latina e nos identifica como um povo que precisa resistir ao imperialismo”, afirmou.

Para ele, iniciativas como o Besa Me Mucho ajudam o Brasil a se reconhecer como parte do continente. “Somos latinos. Um bloco desses atualiza essa consciência”, acrescentou.

Bésame Mucho ocupa ladeiras do Morro da Providência, no centro do Rio – Foto Tânia Rêgo/Agência Brasil

Serviço

Ao todo, 432 blocos estão autorizados a desfilar no carnaval de rua do Rio de Janeiro em 2026. A programação segue até o dia 22 de fevereiro e pode ser consultada no aplicativo Blocos do Rio 2026 e no site oficial do carnaval de rua da cidade.

Fonte: Agência Brasil

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