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Evangélicos reagem à ala de escola que homenageou Lula no Carnaval

Além dos questionamentos na Justiça Eleitoral por parte da oposição que alega propaganda antecipada, o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no domingo, gerou reação política com potencial impacto em um dos segmentos mais refratários ao petista, o evangélico. Partidos e parlamentares, sobretudo os ligados à bancada evangélica, passaram a explorar nas redes sociais imagens de uma das últimas alas da escola, a “Neoconservadores em conserva”, que trazia famílias dentro de latas, algumas com adereço com referência religiosa. Nas redes, representantes da direita criaram fotos de famílias, com auxílio de inteligência artificial, para ironizar a escola, enquanto outros afirmaram que irão judicializar o caso.

Segundo a última pesquisa Genial/Quaest, divulgada neste mês, o índice de desaprovação de Lula entre os evangélicos é de 61%, ante 34% que aprovam a gestão. No geral, a taxa desfavorável ao governo é de 49% a 45%.

No programa oficial, a escola de Niterói descreve que os componentes da ala representam variados grupos que levantam a “bandeira do neoconservadorismo”. “São eles: os representantes do agronegócio (na figura de um fazendeiro), uma mulher de classe alta (perua), os defensores da ditadura militar e os grupos religiosos evangélicos”, que, “no Congresso, formam um bloco conservador”, escreve.

‘Assustou eleitores’

Membro da Bancada Evangélica na Câmara, o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) avalia que Lula pode ter prejudicado sua tentativa de aproximação com os evangélicos. Segundo o parlamentar, “fica difícil convencer o eleitorado” de que o entorno do presidente não sabia das fantasias, que “atacaram os conservadores, os cristãos e a família”.

— Quantos eleitores dele que são conservadores, cristãos, que ele assustou se associando à escola de samba? Eles atacaram tudo aquilo que boa parte do povo brasileiro acredita como coisas fundamentais. Foi um desastre total — afirma o deputado. — Esse movimento provocado pela arrogância do PT ultrapassa a bolha bolsonarista. E isso é ruim para a igreja, porque voltam a endeusar a família Bolsonaro como se fossem enviados de Deus, e demoniza-se Lula como se ele fosse um representante do capeta na Terra — completa o parlamentar, aliado do ex-presidente que se aproximou do atual governo.

As fantasias geraram reações imediatas. Uma das primeiras a se manifestar foi a senadora Damares Alves (Republicanos-DF).

— Quero manifestar meu repúdio e indignação a uma das alas que ridiculariza a igreja evangélica e o agronegócio. Usar verba pública para ridicularizar a igreja evangélica é inadmissível — disse. — A partir de agora, nós temos que olhar de uma forma diferente para o presidente Lula e seus ministros, que homologaram este ato — completou.

Nas redes, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro afirmou que o desfile expôs “a fé cristã ao escárnio” e que a “laicidade não autoriza zombaria e humilhação”, além de cobrar um posicionamento da Frente Parlamentar Evangélica. Logo depois, o presidente da bancada, deputado federal Gilberto Nascimento (PSD-SP), definiu a fantasia como “inadmissível”, e alegou que o desfile tratou os conservadores como inimigos.

Na mesma linha, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) mencionou as eleições para afirmar que os evangélicos devem se lembrar do desfile “na hora de votar”.

Presidenciáveis, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo-MG), criticaram o que o filho do ex-presidente chamou de “ataque à fé de milhões de brasileiros”. O mineiro acusou a escola de preconceito religioso.

Procurada para se manifestar sobre as críticas, a escola não respondeu. Após o desfile, publicou nota afirmando que “durante todo o processo carnavalesco, a nossa agremiação foi perseguida. Sofremos ataques políticos e enfrentamos setores conservadores”.

Na segunda-feira passada, Lula já havia sido alvo de uma denúncia na Procuradoria-Geral da República (PGR), protocolada pelo líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante. Pastor da Assembleia de Deus, o parlamentar criticou o presidente por um discurso feito durante um evento do PT, em Salvador. Na ocasião, Lula pediu que a militância petista dialogue com os evangélicos para tentar aproximá-los do partido, afirmando que “90% deles recebem benefícios do governo”, o que Sóstenes definiu como uma forma de “tratar evangélicos como curral eleitoral”.

‘Imagem negativa’

Professor da USP e autor do livro “História do PT”, Lincoln Secco explica que a dificuldade do partido com esse universo é “estrutural”, mas a oscilação negativa causada pelo desfile pode ser diminuída devido à distância das eleições.

— O PT tem um problema que é combinar a defesa de minorias e a atração dos evangélicos, que são conservadores. O único caminho é pelas pautas sociais e econômicas. Os adversários colam uma imagem negativa no partido sempre que cometem essas derrapagens — avalia Secco.

Ao longo deste mandato, Lula tem feito movimentos na tentativa de se aproximar do grupo, recebendo lideranças, sancionando projetos, além de indicar o advogado-geral da União, Jorge Messias, principal interlocutor do Planalto com o seguimento, ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em outubro, ao discursar em um congresso do PCdoB, em Brasília, Lula reconheceu a dificuldade de diálogo com os evangélicos, e afirmou que eles “não são contra nós (esquerda)”.

Em nota divulgada segunda-feira, o PT afirmou que o enredo sobre o presidente Lula “é uma manifestação típica da liberdade de expressão artística e cultural”. Sobre as ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o partido ressaltou que a escola organizou o desfile de forma “autônoma”, e a ausência de pedido de votos impossibilita eventual propaganda antecipada.

*VIA O GLOBO

Fonte: Mais Goiás

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