Quando o boleto da escola do filho chegou, Andressa Íris, 37 anos, viu um desconto tentador: 10% para quitar o ano inteiro . A proposta veio junto com a matrícula do Theo, 10 anos, no sexto ano e parecia uma oportunidade de economia no orçamento do início do ano.
Mas algo a fez refletir. Nos últimos anos, a publicitária começou a se empenhar em seu planejamento financeiro e aprender sobre investimentos, o que a fez escolher um caminho pouco comum para quem recebe uma oferta de desconto. “No passado, eu paguei à vista achando que estava economizando. Mas hoje eu penso diferente, não quero sacrificar estratégias que já estavam dando certo” — ela diz.
Mas, em vez de correr para o banco, Andressa fez o que aprendeu a fazer nos últimos anos: chamou o assessor financeiro e colocou os números na mesa. “No passado, eu paguei à vista achando que estava fazendo um bom negócio. Hoje, eu penso diferente. Prefiro ver o dinheiro rendendo e pagar mês a mês com os dividendos.”
Planejar ainda parece distante — mas não é
O dilema da publicitária é o mesmo de muitas famílias que buscam equilibrar as contas no início do ano. Para a maioria, a ideia de “investir para pagar a escola” ainda soa distante — e isso tem explicação.
Segundo Marco Loureiro, especialista em investimentos e sócio da XP no Centro-Oeste, falta hábito e educação financeira. “Muita gente no Brasil ainda associa investimento a algo inacessível ou complicado. Por isso, acaba tomando decisões com base na emoção — o desconto parece uma economia imediata, mas sem colocar os números na conta, é só uma sensação”, afirma.
E ele tem razão. Apesar do crescimento recente, apenas 37% dos brasileiros têm algum tipo de investimento financeiro, segundo levantamento da Anbima e da B3. E, entre as famílias, cerca de 43% ainda não têm reserva de emergência — o que significa que, se algo der errado, metade do país não conseguiria cobrir nem as despesas básicas.
Quando o recorte é educação, o número é ainda mais restrito: só 17% das crianças e jovens estudam em escolas particulares, o que mostra como pagar mensalidade ainda é um desafio e um privilégio restrito.
Para Loureiro, o planejamento financeiro precisa ser visto como um hábito, não um luxo. “Com organização, informação e acompanhamento, é possível investir mesmo com valores pequenos e tomar decisões mais racionais. Planejar não é coisa de quem tem muito dinheiro, é de quem quer usá-lo melhor.”
Como saber o que vale mais a pena
O segredo, segundo o especialista, é comparar o desconto oferecido com o rendimento líquido dos investimentos, isto é, o que sobra depois de impostos.
Em Goiânia, as mensalidades médias são de R$ 1.000 na educação infantil, R$ 1.700 no ensino fundamental e R$ 3.000 no ensino médio. Se a escola oferece 10% de desconto para pagamento à vista, o abatimento anual seria de R$ 1.200, R$ 2.040 e R$ 3.600, respectivamente.
Agora, se esse mesmo dinheiro estivesse aplicado em um investimento conservador, como um CDB 100% do CDI (rendimento líquido aproximado de 8,5% ao ano), o ganho anual seria de R$ 1.020 sobre R$ 12 mil, ou R$ 1.530 sobre R$ 18 mil.
Ou seja: se o desconto for maior que o rendimento líquido, vale antecipar o pagamento. Se for menor, o investimento ganha o jogo.
“Essa comparação é simples, mas pouca gente faz”, diz Loureiro. “É só colocar o valor total das mensalidades, o percentual do desconto e o rendimento líquido da aplicação. A decisão deixa de ser emocional e passa a ser matemática.”
Andressa, por exemplo, seguiu essa lógica. “Meu assessor fez as contas e vimos que o rendimento do investimento era quase igual ao desconto. Preferi manter o dinheiro aplicado. Assim, ele continua crescendo e, todo mês, uso o rendimento para pagar a escola. O principal fica lá, intacto.”
Quanto é preciso ter investido para pagar a escola só com o rendimento
Para aqueles que já têm uma carteira de investimentos mais robusta, há a possibilidade de não transformar a anuidade em investimento para pagar as mensalidades, mas ter isso como uma prática recorrente para o que precisar.
A coluna Descomplicando fez alguns cálculos para casos dessa natureza. Os números abaixo são uma simulação que consideram o rendimento líquido médio de 0,7% ao mês (8,5% ao ano), de aplicações consideradas conservadoras como Tesouro Selic, CDBs 100% do CDI ou fundos DI.
| Etapa escolar | Mensalidade média (Goiânia) | Valor investido necessário* |
|---|---|---|
| Educação infantil | R$ 1.000 | R$ 140 mil |
| Ensino fundamental | R$ 1.700 | R$ 238 mil |
| Ensino médio | R$ 3.000 | R$ 420 mil |
*Valores aproximados com rendimento líquido de 0,7% ao mês.
Na prática, quem tem R$ 238 mil aplicados em um investimento de baixo risco conseguiria pagar o ensino fundamental apenas com o rendimento mensal — sem tocar no dinheiro principal.
O que considerar antes de decidir
Qualquer tipo de decisão financeira requer reflexão, aprendizado e conhecimento. Por isso, o passo a passo a seguir é um sugestão de direcionamento para quem quer começar a construir uma reserva financeira e, quem sabe, até poder pagar parte das mensalidades dos filhos com os rendimentos, ainda este ano.
Confira o que levar em consideração:
1. Tipo de investimento: não use recursos de longo prazo, como previdência ou ações, para pagar despesas previsíveis. Eles são para construir patrimônio.
2. Reserva de emergência: jamais comprometa esse dinheiro. É o que te protege de imprevistos.
3. Fluxo de caixa: se o pagamento à vista deixar o orçamento apertado nos meses seguintes, o “desconto” pode sair caro.
4. Alternativas de negociação: mesmo depois da matrícula, vale conversar com a escola. Algumas aceitam antecipação parcial, ajuste de parcelamento ou desconto em taxas.
5. Assessoria e informação: um especialista pode ajudar a enxergar o cenário completo e evitar decisões por impulso.
Andressa diz que hoje sente mais tranquilidade. “Antes eu pensava que desconto era economia. Hoje vejo que o que realmente faz diferença é ver meu dinheiro trabalhar por mim.”
Para Loureiro, esse é o ponto. “O verdadeiro desconto está na decisão bem pensada. E o planejamento financeiro — ao contrário do que muita gente pensa — não é um privilégio. É o caminho mais simples para transformar o dinheiro em tranquilidade.”
Fonte: Mais Goiás









